Embarcação do Projeto levou orientação, consultas médicas e prevenção contra a covid-19 para ribeirinhos e quilombolas

O Projeto Quilombo, desenvolvido há 20 anos pela Mineração Rio do Norte (MRN), recebeu a Medalha Covid, uma homenagem realizada pela Associação Brasileira das Forças Internacionais de Paz da Organização das Nações Unidas (ABFIP ONU), em reconhecimento ao trabalho desempenhado com os povos quilombolas e ribeirinhos da região. O Projeto da MRN foi responsável por cuidar, proteger e salvar a vida de centenas de moradores de comunidades tradicionais do Oeste do Pará durante os períodos mais críticos da pandemia da covid-19 em 2020 e 2021.

A premiação foi em outubro, em São Paulo, e homenageou diversos projetos, profissionais da saúde e outros trabalhadores brasileiros que estiveram na linha de frente do combate à pandemia, entre eles o Projeto Quilombo. A honraria foi recebida pelo médico Joseraldo Furlan, mais conhecido pelo apelido carinhoso de Dr. Jô, que é o médico do Projeto Quilombo. 

À frente do Projeto Quilombo há quatro anos, Dr. Jô relembrou o trabalho da equipe de saúde e suporte durante os primeiros meses da pandemia, quando as comunidades tradicionais precisavam ser isoladas do contato com os moradores das cidades da região oeste paraense para evitar a proliferação do vírus entre uma população que já é social e economicamente vulnerável.  “A gente fez um trabalho muito forte, que a gente chamou de ação emergencial do Projeto Quilombo. Em boa parte do tempo nós fomos a única equipe médica na região do Alto Trombetas em vários quilômetros. Quando estava todo mundo em casa, escondido, preocupado, se preservando, a gente estava no rio, cuidando das pessoas. Foi um divisor de águas para salvar vidas. Íamos de comunidade em comunidade e fazíamos um monitorando de isolamento. A gente fez um projeto no qual a gente ia todos os dias, de segunda a sábado, de 5h a 8h por dia”, recordou o médico. 

O médico disse atuar no Projeto Quilombo durante a pandemia foi um privilégio. “Eu lembro no começo da pandemia, meus amigos, preocupados, diziam para eu ir embora, eu dizia: não vou. Foi também um privilégio a MRN acreditar no trabalho, na proposta que a gente fez junto. A gente estava lidando com uma coisa que a gente não conhecia, não sabia o que ia acontecer, mas o peso de estar no campo foi muito dividido, muito compartilhado com uma equipe extraordinária”, destacou o médico.  

Durante a pandemia, o barco do Projeto Quilombo estendeu as ações de atendimento para 24 comunidades – originalmente, o projeto atende 14 comunidades dos territórios Alto Trombetas I e II –, levando assistência clínica e médica, informações sobre cuidados e prevenção contra o novo coronavírus, distribuição de medicação e encaminhamento para realização de exames em casos de agravamento da Covid-19. 

No período dos dois primeiros anos da pandemia, foram feitos mais de 7 mil atendimentos, com 2.376 consultas médicas e 4.458 consultas de enfermagem, além de 72 palestras educativas e 91 ações de cuidado em saúde, com orientações de uso de máscaras, higienização de mãos e superfícies e distanciamento social.

As medidas de combate à pandemia continuam sendo desenvolvidas pela equipe de saúde do Projeto Quilombo, mas as ações emergenciais foram diminuídas com o avanço da vacinação e recuo dos casos de Covid-19 na região. 

Premiação coletiva 

Jéssica Naime, gerente geral de Relações Comunitárias da MRN, destacou a relevância da premiação como uma forma de reconhecer o trabalho da empresa em parceria com outros atores sociais para frear os casos de covid-19 na região. Para ela, a parceria foi um exemplo de cooperação fundamental para a conter o avanço da doença na localidade. “Foi um trabalho conjunto da empresa com as lideranças das comunidades vizinhas e atores sociais, como Ministério Público do Estado, Universidade e outros, no grupo criado para essa interlocução, que foi denominado Pela Vida no Trombetas. A MRN, de fato, tomou todas as medidas para evitar a contaminação da covid-19, e foi bem-sucedida, pois os índices de contaminação foram muito abaixo da média nacional. Tivemos pouquíssimos registros de óbitos. Sem dúvida, é um reconhecimento a todo o trabalho de responsabilidade social da MRN em conjunto com seus parceiros”, destacou Naime.

Quilombola, doutor em Sociologia e Direito e mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Fluminense (UFF), o professor Marcelo Conti, que atuou no Grupo Pela Vida no Trombetas, diz que a premiação pelas ações do Projeto Quilombo é uma conquista coletiva. 


“Eu sou preto e quilombola. E como preto e quilombola eu sei que nenhuma premiação é individual. Se o Projeto Quilombo está recebendo uma premiação, no meu modo de ver a vida, é uma premiação que me atinge também, atinge cada uma das comunidades, atinge não só a Mineração Rio do Norte, mas também o Ministério Público, é uma premiação coletiva”, reforça o educador. “Esse projeto foi legitimado pelas comunidades quilombolas. Essa legitimidade social eu acho que vale mais do que qualquer outra coisa. Eu diria até que o prêmio veio da comunidade em reconhecer a importância de estar junto, de trabalhar junto”, complementou o quilombola. 

Reconhecimento 

O remanescente quilombola e presidente da Associação dos Moradores da Comunidade Remanescente de Quilombos de Cachoeira Porteira (AMOCREQ-CPT), de Oriximiná, também no oeste do Pará, Rubens Rocha, de 36 anos, agradeceu o trabalho realizado pelo Projeto Quilombo na região. “Foi pedido que o Projeto Quilombo atuasse na comunidade de Cachoeira Porteira, até porque a comunidade não faz parte da abrangência da empresa. E graças ao Projeto Quilombo tivemos visitas médicas, com muitos atendimentos. Foram prestados diversos serviços. Foi fundamental, muito eficiente nesse momento (a pandemia) aqui na comunidade de Cachoeira Porteira. Atendeu quilombolas e indígenas, com todo suporte. Pegavam sol, chuva, temporais no rio, enfrentavam várias horas de viagem, rios secos, pedras... Este trabalho foi feito na cara, coragem e coração. Somos muito gratos”, afirmou, comovido. 

Presidente do Conselho da ABFIP, Ernesto Janus falou da relevância da premiação. “Para nós, é uma honra. É uma medalha que homenageia heróis e tem uma simbologia muito grande. Então, é fundamental poder reconhecer essas pessoas e esses projetos que fazem a diferença no Brasil e no mundo. É importante reconhecer as pessoas que lutam e fazem o bem para os outros e elas têm que ser reconhecidas em vida pelo trabalho fantástico que fazem”, destacou.